Lançado em 1992 para o Sega CD, Night Trap é considerado um dos principais responsáveis pela criação da ESRB, o sistema de classificação etária para jogos dos EUA. Assim como Mortal Kombat, Doom e alguns outros títulos, o jogo foi severamente perseguido pelos "guardiões morais" do país, que o acusavam de incitar a violência contra mulheres. Embora aqui no Brasil Night Trap seja pouco conhecido, graças à quase inexistência do Sega CD por essas bandas (e as outras plataformas para as quais ele saiu depois, o 32X e o 3DO), na verdade ele foi ainda mais crucificado que Mortal Kombat, porque o seu gráfico "realista" (leia-se: FMV) criava "um novo nível de violência jamais visto antes nos video games", segundo a mídia americana. Nem vou entrar no mérito da hipocrisia colossal envolvendo a polêmica, mas é válido ressaltar que Night Trap foi uma vítima injusta, já que o jogo não tem absolutamente nada do que diziam. A trama era que cinco garotas iam passar um fim de semana na casa de uma amiga, mas um outro grupo de mulheres desapareceu lá. O jogador, membro de uma equipe de investigação, tem acesso a uma série de câmeras espalhadas pela casa e, através dela, deve desvendar o mistério e salvar as garotas. Os vilões são os "Augs", uma espécie de vampiro decadente e extremamente tosco, que você pode prender usando as armadilhas da casa. Não havia sangue, não havia violência (as armadilhas consistiam basicamente de buracos no chão, escadas escorregadias e estantes giratórias) e muito menos sexo. A grande polêmica se deu por causa de uma cena em que a personagem Lisa é atacada no banheiro enquanto usa uma camisola. Claro que os desinformados acusadores esqueceram de reparar que a tal peça de roupa não deixa nada à mostra, e que o objetivo do jogador é salvar a pobre moça, e não matá-la como diziam. Sem contar que, mesmo que você falhasse, tudo que acontecia é que colocavam um objeto obviamente de plástico em volta do pescoço dela e a arrastavam para fora da tela, e você levava game over na hora. Então... É, foi um período triste, provavelmente o ápice do histórico de perseguição aos video games encabeçada pela mídia tradicional. Enfim, como resultado, a ESRB foi criada, Night Trap vendeu muito mais do que devia (já que, não fosse a polêmica, ninguém nem ia dar bola pro jogo, que era bem passável) e, em 1995, ganhou uma versão para DOS que vinha com um mini-documentário sobre a confusão. Intitulado "Jogos Perigosos", ele apresenta um breve sumário dos acontecimentos, depoimentos dos criadores, das atrizes e algumas cenas verdadeiramente chocantes do processo de julgamento do caso. Chocantes por dois motivos: primeiro pelo congresso americano ser tão desocupado a ponto de parar tudo pra falar mal de um jogo de video game, e segundo pela maneira nada imparcial como a coisa foi conduzida. Enfim, assistam e divirtam-se ou revoltem-se. Até a próxima.
Jogos Perigosos
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